sábado, 7 de abril de 2007

Queda

Sempre se debruçava na janela do seu quarto quando não sabia o que fazer.
Infelizmente, nada mudava ao olhar o cenário, mesmo de anteontem. Ainda se perguntava: "E agora?".
Sempre achava a idéia de embriagar-se sozinho patética, sempre considerou que quando o fizesse, aceitaria seu estado deprimente. Estranhamente, agora que começara, não achava que todas aquelas doses o deixavam tão diferente.
De sua janela, via prédios vizinhos. Podia observar pessoas nas ruas, por frestas entre dois edifícios. Uma garota com frio passeava sozinha. Alheio a ela, Eduardo percebia como a bebida o afetava. Sempre sentia impulsos de lançar seu corpo. Mas desta vez, parecia levar a sério a idéia. Não que refletisse sobre isto. Estava justamente tentando não refletir sobre nada.

Era tarde. Seus companheiros de moradia já deveriam estar dormindo. Ninguém nas janelas para presenciar seu ato. Já conhecia o tempo que demorava para uma pessoa andar de uma fresta a outra dos edifícios. A garota acabara de passar por uma, depois outra. Alguém precisava testemunhar seu feito. Talvez devesse se jogar com algum cartaz pedindo paz mundial, poderia se tornar um mártir. A garota passara pela penúltima fresta. Faria alguma diferença se morresse por ideais ou por tolice? A garota sumira atrás dos prédios. Estava prestes a reaparecer. Era sua última chance. Talvez a fome na África. Ela apareceu. Gritou para dentro, baixinho, foi mais rápido do que imaginava.

Quando seu corpo tocou o chão, quatro segundos se passaram antes de pensar: "Panaca. Achava mesmo que iria morrer caindo tão pouco?"

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