segunda-feira, 9 de abril de 2007

Ao lado da carteira sobre o criado-mudo.

Nunca havia quebrado osso algum, e seu julgamento ingênuo dizia que estava bem. Seu corpo todo lhe causava dor, mas sempre imaginara a dor de um osso partido maior que aquilo. Tivera uma sorte azarada, a grama e a terra amaciaram a queda.

Ela imaginava que poderia ter encontrado um amigo, simplesmente porque por pouco já não fizera, tantas vezes, a mesmíssima coisa. Ele temia que ela tivesse sentido o cheiro de seu hálito, com cachaça, e assim o julgasse. Ela começava a ter idéias sobre como a vida pode apresentar maneiras inusitadas de mostrar um príncipe encantado. Ele lembrava-se de onde deixara a chave de casa, ao lado da carteira, sobre o criado-mudo, em seu pequeno quarto. Ao mesmo tempo que sua mente rejeitava a hipótese de acordar todos os colegas de quarto durante a madrugada, ouvia um som baixo, totalmente reconhecível. Seu celular estava tocando, ao lado da carteira ao lado do celular, em seu criado-mudo.

O que é não atender a um telefonema para quem deveria estar morto? Eduardo relaxou, deixou-se curtir a vida de defunto - apesar da contradição do conceito. Parou de andar no meio da escada, tentou tirar a sujeira que estava em suas calças, e disse:
- Minhas chaves estão lá dentro. Não vai demorar a amanhecer, vou ficar por aqui.
Não esperava nada, poderia se jogar no chão e ficar até o sol nascer. Mas é claro que Flávia não deixaria ele fazer isto. Afinal, ela tinha as chaves de seu apartamento bem ali, e lá havia um sofá confortável para ele dormir. Mas, é claro, só ofereceria seu sofá em último - mas último mesmo - caso...

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