- Você não pode ficar aí jogado, acabou de cair do terceiro andar. Não está doendo?
Eduardo encostou-se na parede. Olhou-a como quem olha nuvens. O mundo todo, aliás, parecia uma nuvem, e ele, um sonhador pastor sem ovelhas. Olhava as nuvens e tentava entender suas formas, mas, no fundo, nada daquilo tinha importância.
Há dias oscilava entre essa indiferença e sua angústia profunda, incurável e cheia de folhas e galhos, tentando se camuflar entre tudo o que precisava enfrentar a cada dia.
- Você está me tratando como se eu tivesse caído. Essa dor não é nada. Eu queria estar morto.
Patético, queria estar morto e não quebrara uma perna sequer. Era um falso. Não queria realmente estar morto. Só o que não queria era estar vivo.
Flávia assustou-se, e a pergunta, o questionamento óbvio do motivo da tentativa de suicídio, não chegou a sair de sua boca. Ela olhou para a expressão do rapaz, e sentiu seu cansaço. Foi repentino o entendimento, como um soco da realidade sobre seu estado temporário de quase animação: Aquele rapaz vivia no mesmo mundo que ela, capaz de exaurir jovens aos vinte anos.
O mesmo mundo que não podia ser real, mas estava ali, inacreditável, inconcebível, e o pior: Insistente em mostrar-se irreparável. Ela começou a chorar, sem a menor vergonha de suas lágrimas, na frente de um suicida.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
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