terça-feira, 25 de setembro de 2007

Vestido

Flávia, de repente despertou de seus pensamentos devido à um barulho vindo da rua.
Não sabia quanto tempo ficara ali, parada na porta.
Tentou distiguir qual era o barulho que havia ouvido.
Não, não era nada importante. Somente o barulho do ônibus passando na rua em frente à seu prédio.
Entrou novamente em seu apartamento, fechou a porta e caminhou em direção ao fogão. Precisava de outro café. Precisava pensar o que faria naquele dia. Precisava não criar expectativas por um estranho maluco. Precisava...

Ela se viu retratada nele. Aquele desespero. Aquela angústia. Aquele gosto amargo do fracasso, da desilusão. Aquilo foi tão humano. É tão raro de ver. As pessoas usam máscaras. Não revelam seus sentimentos. Nem aqueles mais próximos a ela tinham sido tão verdadeiros quanto aquele rapaz.

Enquanto bebia seu café, colocou Janis Joplin na vitrola. Abriu as cortinas. Deixou o sol entrar. Tirou os sapatos. Andou descalça sentindo nos pés nus o assoalho gelado. Soltou os cabelos. Esqueceu do cigarro.Foi ao guarda-roupas e escolheu aquele vestido leve e delicado que a tanto tempo não vestia e foi tomar um bom e belo banho.
Ela não havia dormido a noite inteira, mas seu corpo não estava com o menor sinal de exaustão. Pelo contrário, sentia toda disposição para fazer uma caminhada de horas, para dançar, para viver.

Um banho nunca fora tão agradável quanto aquele. Nenhuma roupa foi antes tão confortável quanto aquele vestido naquele momento.
Se sentia livre.

Mas precisava se conter. Ela estava assim por causa de um estranho. "Calma Flávia! Controle-se! Pode ser que nunca mais o veja!".

Mas alguma coisa lhe dizia que iria esbarrar com ele novamente pela rua.
Ela tinha certeza.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Mensagem enviada

Conferiu a entrada para recarga do celular perdido. Comparou com a sua. Eram diferentes, seu carregador não serviria. Mas a entrada parecia estranhamente familiar. Sentiu um certo prazer quando a lembrança veio em sua mente, brilhando e alvoroçada.

Jorge guardou os dois celulares, parecia que o destino havia lhe dado uma missão: devolver o celular a sua dona. E junto com a missão, uma desculpa para falar com quem mais queria.

Aquilo com certeza salvava a sua noite. Tentou lembrar se já havia visto aquela entrada de recarga de celular em outro lugar. Mas não conseguia. Uma, apenas uma pessoa, linda, maravilhosa, encantadora, só ela tinha um carregador que encaixasse ali.

Pagou o que devia, e saiu contente do bar. Seguindo pelas ruas, em direção a seu apartamento, percebeu um acidente a frente. Um carro amassado, encostado, pisca alerta ligado, uma moto caída, vultos de seres humanos. Havia um corpo jogado. Parecia ter sido recente.

Jorge pensou em parar e ajudar. Mas não havia muito que quisesse fazer. Então, mesmo dirigindo embriagado, ligou para a polícia.

"Polícia Federal Boa noite"
"Houve um acidente entre um carro e uma moto entre a avenida Getúlio Vargas e a rua Emílio Figueiredo Luz. E houve feridos, sugiro uma ambulância."
"Você está no local do acidente?"

Desligou. O recado estava dado. E já estava na frente do seu prédio. Enquanto o portão eletrônico abria, digitou em seu celular. Não queria ligar para ele tão tarde, mas a mensagem seria lida quando ele acordasse.

"Bom dia meu querido! Quando acordar por favor me ligue, sei que disse que não te ligaria mais, mas estou precisando de uma ajudinha sua. Um forte abraço!"

Enviar para: Eduardo. Enviando mensagem. Mensagem enviada.

E, ao lado da carteira, sobre o criado-mudo, um celular vibrava: "1 nova mensagem".

Celular

Ela acordara com a mesma roupa com que tinha saído na noite anterior.
Sua cabeça rodava e tinha uma forte dor a pulsar.
A luz lhe feria os olhos e ela tentava recapitular o que havia ocorrido.
Procurou o celular para ver que horas eram, mas ele não estava à vista.

Ela sabia que não devia ter bebido tanto... é sempre assim, acabava com si mesma por causa daqueles que gostava.
Passava a noite chorando por nada.
Maldito Cláudio! Nunca mais iria olhar na sua cara.
Ela tinha que começar a se auto valorizar. Sempre se arrastava aos pés daqueles com quem estava envolvida.
Dessa vez seria diferente.

Levantou-se devagar. Seu corpo estava frágil. Precisava de água.
Olhou no espelho. "Que horror!"
Procurou por seu celular.
Nada. Deve te-lo perdido. Também, no estado que estava. Chegara a cair. Céus, que vergonha. Definitivamente não repetiria tal ato.
Dane-se. Assim seria melhor. Cláudio não poderia lhe incomodar caso se arrependesse do bolo que lhe dera.
E o ódio por Cláudio cada vez aumentava mais.
Revirou suas coisas. Pegou as poucas fotos que tiraram naquele primeiro mês. Fitou-as pela última vez. Depois rasgou uma a uma.
Vendo por esse ângulo, ainda bem que fora só um mês, assim tinha poucas coisas a se desfazer.

"Ai minha cabeça!"

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Violão

Tocar na noite era um hobbie novo. Algumas vezes tocava de graça. Tocava porque gostava que admirassem sua música, seu talento, suas idéias saindo de seu violão e entrando na mente do público. Mas naquele dia não eram suas idéias que iam até o público, era a idéia de Gabriela que entrava e ficava ribombando.

Quando chegou em sua moto, cansado, já era tarde. Será que Gabriela esperava que ele ligasse? Pegou o bilhete e digitou em seu celular o número dela. Provavelmente a acordaria. Era muito tarde. Seria inconveniente. Guardou a nota fiscal com zelo em sua carteira. Ligou sua moto. Isso podia esperar.

Não colocou capacete. Quis sentir o vento em seu rosto. A noite já fora frustrante em demasia. Queria tanto vê-la. Sentia o vazio deixado pela estranha. Por que tinha de ser assim, ao acaso? Por que não poderia simplesmente se apaixonar por alguma melhor amiga?

"Quando ela acordar, terá uma surpresa." ele pensava "Não tenho medo de mostrar o que sinto. Vou ligar amanhã mesmo. Vou mostrar meu interesse.". O medo de não mais a ver o estrangulava. Dirigindo sua moto barata, pegou seu celular e começou a digitar uma mensagem enquanto acelerava nas ruas vazias.

"Bom dia querida. Te ligo mais tarde. Beijos, seu músico" Enviar. Distração. Carro no cruzamento. Desvio para a esquerda. Giro no ar. Som alto de pneu. Moto arrastando. Corpo lançado para longe. Sangue quente no asfalto frio.

Mas não se preocupe. O violão está bem.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Ao amanhecer

Pronto, amanhecera.
Ele iria embora.
Mas qual era a diferença desse momento comparado às últimas 3 horas?
os dois permaneceram em silêncio. Nem uma palavra se quer.
Ela não sabia o que dizer.
Ele nem sequer tentava.

Ela olhava para aquele rosto cabisbaixo, com o olhar perdido em algum lugar que ultrapassava o chão. Ele segurava a xícara de café entre as mãos, como se tentasse se aquecer com o calor do café, que há horas esfriara.
Ela não lembrava bem, mas se ele havia bebido 2 ou 3 goles, era muito.

Queria tanto decifrar aquele rosto sem expressão com olhos distantes.

De repente ele olhou para frente, se voltou para a janela, colocou a xícara sobre a mesa, esfregou o rosto e voltou-se para ela.
- Poxa Flávia, muito obrigado. Nem sei como lhe agradecer. Vou parar de lhe atrapalhar. Agora já devo conseguir entrar em casa.
- Tem certeza que já vai? Será que não é bom esperar mais um pouco?
- Não, não. Tenho que ir. Tenho coisas a resolver e não quero tomar seu tempo.
- Está bem então. Bom, você sabe onde moro, qualquer coisa que precisar é só bater.
- Vou me lembrar disso. - e sorriu.

Ela abriu a porta para ele.
Ele desceu rapidamente as escadas, sumindo pelo corredor.
E ela ficou parada na porta, esperando que ele voltasse.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Quase

Espionar o distraíra, e levara um susto quando o homem parou de urinar e abaixou-se. Jorge e o estranho se encararam sem querer por um instante, e depois desviaram juntos. Como o senhor havia descoberto que Jorge espionava seus pés? Não sabia, mas a situação estava constrangedora demais. Saiu rapidamente do banheiro, e na pressa esbarrou com força em uma garota distraida, atrás do biombo que conduzia aos dois banheiros.

Pediu desculpas, ela parecia bem embriagada, logo se recompôs. Jorge sentou-se na mesa mais próxima, ainda abalado pela visão do homem. Quando este saiu do banheiro, Jorge olhava o músico, e fingiu que não o percebia. E assim parecia acabar tudo bem.

Apesar da música, Jorge percebeu um barulhinho estranho, ao fundo. Parecia um celular vibrando. Aguardou que a pessoa atendesse. Demorou, mas o celular parou. Não conseguira identificar de onde vinha o som. Logo depois, a garota saiu do banheiro, e foi embora. O celular tocou novamente. Jorge prestou atenção. Vinha de uma mesa sozinha. Ao procurar o aparelho que vibrava sem parar, encontrou um celular jogado no chão. Quando o pegou nas mãos, viu o nome de quem ligava: Cláudio. No lado do nome, um coração cor-de-rosa. Olhou em volta procurando o dono ou dona. Não encontrou. Quando decidiu atender, um aviso "Bateria fraca", seguido de dois toques altos e a tela apagada.

"Hoje não é meu dia." pensou, e sentou-se novamente. "Que presunção a minha. Achar que algum dia ainda poderia ser meu..."

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Concentração

Ele tinha uma funcão a desempenhar, mas seu desejo era sentar naquela mesa e tentar saber mais sobre aquela garota cujo sorriso lhe chamara a atencão.
Ela ficou na defensiva na sua primeira tentativa de aproximacão. Mas enfim dissera seu nome. Gabriela. Ela não esqueceria esse nome tão cedo.
Ainda iria conversar com ela até o final da noite. No seu próximo intervalo iria tentar conquistar pelo menos o seu carisma, para poder alcancar seu objetivo.
Mas agora era preciso se concentrar no show. Iria tocar maravilhosamente bem, para tentar impressioná-la.
Qual era mesmo aquela cancão que elogiava uma Gabriela?
Ele tinha tido um sonho na noite anterior. Sonhou com um romance feliz. Com idas aos parques e cinemas nas quintas à noite. Os fins de semana sempre encantadores, ao lado de alguém que lhe faria extremamente feliz.
Acordou até empolgado, pensando que talvez aquele seria o dia de mudar a sua vida.

"Ela levantara. Onde será que ela havia ido?
Tentou não procurá-la, concentrar-se na música, no show."

De repente um barulho.
"Será que lhe acontecera algo?
Não deve ter sido nada. Concentração! Sorria para seu público enquanto sua dama não estiver presente."

"Onde será que ela está?"

De relance viu a mão de alguém perto da caixa de som. Virou-se em puro reflexo e então a vira. Já estava angustiado. A falta repentina... mas aí estava ela novamente. Então notou, ela lhe deixara algo.

"Concentração! Continue seu show"

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Nota Fiscal

"Talvez seja melhor eu ir embora". Sentia que talvez estivesse julgando mal as coisas. Sabia que não devia beber muito, ainda mais sozinha. No momento, não via nada de errado no que estava fazendo ou planejando fazer. Mas em seu íntimo, suas expeiências passadas diziam que não deveria confiar no próprio bom senso.

"Não vou continuar aqui, já cai no chão, aquele músico vai me seduzir, não sei se quero isso."
"Claro que quero isso."
"Não confio em você!"
"Você está confusa"
"Melhor ir embora"
"Sozinha? De novo?"
"Deve ter acontecido alguma coisa com Cláudio"
"Aqueles olhos..."

Uma idéia surgiu em sua mente, e ela decidiu seguí-la. Pegou um papel - uma nota fiscal - em sua bolsa, uma caneta, e anotou seu nome e seu celular. "Hoje não vou tomar decisões importantes, mas amanhã já poderei..."

Saiu do banheiro discretamente e foi direto até o balcão do bar. Fechou sua conta, pagou tudo, mal foi vista. Antes de sair, passou pelo lado do palco e colocou a nota suavemente ao lado de uma caixa de som. O músico a olhava, ela retribui o olhar rapidamente, depois virou-se e saiu, concentrada para não cair do salto.

Ao sair do bar, sentiu-se idiota, voltando para casa sozinha, bêbada, e depois de seduzir um cantor de bar. Poderia pegar um táxi, mas deixou suas pernas conduzirem até onde elas quisessem. "Vamos, para casa, acho eu".