quinta-feira, 17 de maio de 2007

Espiando pés

Sabia que não tinha chance alguma. Mas a rejeição dói até nestes casos. "Você não o quer realmente, é outro o seu amado". Mesmo assim, ainda sentiu uma inveja da moça sentada sozinha, que recebera duas músicas e uma cantada. Obviamente ela era muito mais atraente para o músico.

Sua mão pendia no balcão. Segurava um bilhete com um telefone. Há horas se martirizava. Não queria querer, mas queria. Estava tão carente. Chegou a encarar o garçom e até um rapaz que viera com sua namorada. Isto antes mesmo de embriagar-se.

Quando acabou sua dose de whisky, caminhou até o banheiro masculino. Ali poderia encontrar o que queria. Mas estava vazio. Aproximou-se da lixeira, e em gesto teatral e simbólico, ameaçou jogar o papel que há horas segurava na lixeira. Mas parou seu movimento. "Que bobagem. O número está na minha agenda. Nunca tive coragem de apagar".

Jogou fora o papel, mesmo assim. Olhou-se no espelho. Entrou um homem no banheiro. Deveria ter a sua idade. Uns 45 anos. O desespero era grande, encarou-o de cima a baixo. O homem percebeu. Rapidamente entrou em uma cabine, e o barulho apressado da tranca.

Jorge não resistiu. Não devia estar muito certo. Abaixou-se, sentiu suas pernas doloridas, e espiou os pés do homem que urinava. E aquilo era bom. Pela simples sensação de estar espionando. Não é possível compreender nem a si mesmo.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Um pouco mais de álcool

Ela olhou melhor para o rapaz a sua frente.

- Nossa, isso é demais para a minha pessoa. Posso saber o por que de tanto interesse?
- Eu diria que seu sorriso me encantou . E talvez fosse bom conhecer o que está por trás dele.
- Uhm... muito bom. Fico lisongeada. Pena que não houvi as dedicatórias que você fez para mim.
- É uma pena mesmo. Qualquer garota daria tudo para ter tido uma dedicatória como as que fiz para você. Todos no bar olharam para ver sua reação, e você continuava submersa em sesu pensamentos.
- Qualquer garota, é? Você não está se auto-promovendo demais, não?

Ela estava ríspida. Estava furiosa com Cláudio. E vinha esse cara falar abobrinhas ao seu ouvido. Por que não a deixava em paz?

- Talvez eu até esteja me auto-promovendo, se isso serivir para despertar sua atenção.
- O que você quer afinal?
- Isso é segredo. Posso te pagar um drink?
"Bom, ao menos é cavalheiro. Vejamos no que isso vai dar..."
- Aceito.

Ele sorri e pede um wisky com energético para ela.

- Agora terei que voltar ao meu show. Posso sabel qual é o seu nome?
- Gabriela.
- Muito prazer Gabriela! Meu nome é Gustavo e essa noite será toda dedicada a você!

Ele piscou para ela e voltou ao seu posto de música da noite.
Ela se perdeu naqueles olhos cor de mel. Começou a reparar melhor naquela aparição e sentiu-se feliz novamente. Mas já não sabia se era por causa do álcool ou pelo que acabara que acontecer.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Fácil

A segunda caipirinha estava boa. O gin nem tanto, e foi por isso que pediu a terceira caipirinha. Mal chegara sua bebida quando um rapaz sentou-se em sua mesa. Uma esperança incontrolável a dominou. "Cláudio!". Mas não era. Teve que encará-los por segundos para perceber que a música havia parado e que o artista estava a sua frente.

- Distraída?
- Pois é.
- Nem percebeu nada.
- Eu te conheço?
- Ainda não.

Estava com um pouco de raiva. Há um minuto criara a ilusão de que esquecera de Cláudio, e a aparição do novo rapaz a fez perceber o quanto ainda o desejava. E ao desejar Cláudio, desejou não desejar, e observou o cantor. Percebeu seu cabelo liso e loiro, na altura do nariz. Era alto e mais forte do que Cláudio. Tinha charme. Na testa, maquiagem escondia uma espinha.

Ela riu. Ele sorriu. Ela olhou para o seu sorriso. "Tudo bem, me convenceu", pensou, tão fácil estava depois de tanto beber.

- O que eu deveria ter percebido?
- Dediquei duas músicas a você, e te observo desde que cheguei.

Dizer-se-ia

Depois daquela frase e do choro inocente, Flavia finalmente decidiu tomar uma atitude.
Olhou bem nos olhos de Eduardo e lhe disse decidida:
- Muito bem Eduardo. Está na hora de você se recuperar. Minha casa fica a duas quadras daqui, e pelo jeito você não quebrou nenhuma perna. Sendo assim, você vai pra lá, deitar no sofá e descansar. Faltam pelo menos 3 horas para que alguém na sua casa acorde. Vamos!
- Não, não, não precisa. Eu ficarei bem aqui.
- Eu não disse que você teria escolha. Então ande.
Sem ter forças para entrar em discussão, e sabendo que se ficasse ali, passaria longas horas sob o sereno, concordou com Flávia, sem mais questionamentos.
O caminho até a casa dela foi marcada pelo silêncio.
O único ruído que se ouvia eram os passos de ambos.
Eduardo olhava para o chão, sem muito interesse por nada. Apenas olhava.
Flávia caminhava angustiada, fitando o rapaz ao seu lado de tempos em tempos. Sem saber o que realmente estava fazendo. Não sabia qual seria sua próxima atitude. Não sabia como reageria a qualquer ato que o outro tivesse. Dizer-ia-se até que estava com um pouco de medo. Mas algo lhe dizia que aquilo era o certo a fazer.
Pensou, "O certo a fazer...". Se olhasse para trás e visse cada dia que se passou, ela seria a última pessoa que poderia opinar na coisa certa a ser feita. Mas agora ela teria uma nova chance de recomeçar.

Chegaram ao apartamento de Flávia.
- Entre. Fique a vontade. Eu vou preparar um café.
Ele sentou-se no sofá, olhou em volta, admirou o ambiente e voltou a sua realidade. "O que eu fui fazer?".

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Casa abandonada

Havia uma revolta, um desespero que não movia um músculo do corpo de Cláudio. Seu sentimento girava em torno dele, um sentimento que nunca sentira, uma vontade de sobreviver. Queria muito chorar, mas tinha medo. Talvez precisasse de seus olhos limpos.

"Ele não tem porque me matar", tentava se convencer. "Tudo vai acabar bem". Mas sentia que estava se enganando. Sabia que estava ajoelhado por pouco tempo, mas este dilatou-se bruscamente, em cada momento de tensão. Quando percebeu que estava na mira de uma arma de fogo, quando ela tocou em sua nuca, gelada com a morte.

Perguntava-se porque, perguntava-se se deveria reagir. "É apenas um susto, ele vai me libertar". Talvez o pensamento positivo ajudasse. "Ele vai me libertar, ele vai me libertar".

Assustou-se quando sentiu seu celular vibrando no bolso da calça. Sentiu a amarga lembrança de sua namorada. Talvez nunca mais a visse. E ela chamaria em vão. Se não atendesse, talvez ela ligasse para a polícia. O último mês lhe passou pela cabeça. Exatamente quando esse mês parecia querer valer toda sua vida, essa tragédia.

Ouviu um barulho, parecia haver dois - se não três - atrás dele. Sentiu-se tremer. Fechou os olhos, esperando acordar quando os abrisse novamente. Enviou uma mensagem por pensamento para sua namorada "Desculpa, eu não volto. Te amei muito". Em seguida arrependeu-se profundamente do próprio ceticismo.