Em sua cabeça ebuliam pensamentos, falavam de dever, deve, não deve, mas sua bebida dissolvia estes pensamentos e a deixava vazia, apenas olhando o músico nos olhos, flertando-o sem censura música após música. Quando algum pensamento desagradável lhe voltava a mente, apertava o celular com força, e esquecia. Naquela noite, ela poderia fazer qualquer coisa.
"Será que chorei?". Tocou espontaneamente abaixo dos olhos. Achava que não, mas não tinha certeza. Vislumbrou-se chorando em casa, sozinha, molhando o próprio travesseiro, este já tão cansado de abafar seus gritos silenciosos. Mas ela faria diferente. Esta noite, nada mais importaria, e ela seria como uma folha seca, voando livremente por onde os ventos a levam. Sem medo. Sem censura. Sem motivo para não ser assim.
"Droga, será que borrei minha maquiagem?". Na distração, poderia tê-lo feito. Mas precisava estar bonita. Queria aqueles olhos para ela. Levantou-se, com o celular ainda na mão, e caminhou até o banheiro. No caminho, deu uma olhadinha para o músico, tentando ser sensual. Foi o suficiente para esbarrar em um senhor que saia apressado detrás do biombo que escondia a entrada para os dois banheiros.
Provavelmente o senhor não estava tão embriagado quanto ela. Ao menos não caiu no chão, como ela. O senhor veio desculpar-se, ajudou-a a se levantar, só então percebeu como estava cambaleante. Temia a reação do seu fã, mas este, do palco, não interrompeu a música. Com medo de olhá-lo, entrou rápido atrás do biombo e então no banheiro. Olhou-se no espelho: "Minha maquiagem está boa. Mas com que cara saio daqui? Acho que hoje eu termino chorando em casa, mesmo. De novo...".
quinta-feira, 26 de julho de 2007
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