quinta-feira, 24 de abril de 2008

Uma volta no parque

Flávia decidiu que sua vida iria mudar. Ela o faria. A partir daquele momento.
Começou por voltar às suas leituras regulares, que há muito haviam parado, e que sempre tinha vontade de voltar a fazer.
Foi até sua estante, mas não quis ler nenhum dos seus livros.
"E agora? Uhm... A biblioteca, claro! Só não posso esquecer de renovar depois de 15 dias..."
E lá foi ela, em seu vestido branco, os cabelos soltos, pelas ruas da cidade até a biblioteca central.
"Está um dia lindo! Acho que vou aproveitar pra passar a tarde no parque..."
Chegou a biblioteca, olhou, olhou e olhou.
Duas horas depois, por fim decidiu-se por um título.
Fez o recadastramento e saiu contente da biblioteca com sua nova leitura nas mãos.
Já no parque, procurou por um bom banco, mais à sombra, onde houvesse alguma movimentação.
Depois de ler a introdução, a pior parte do livro, mas que lia só para ver se não havia algo importante, deu uma olhada à sua volta. Começou a reparar nas pessoas que passavam por ali. Cada detalhe, cada sorriso, os passos apressados... e foi seguindo um desses passos que acabou olhando para o começo de uma rua, numa esquina à frente. E de repente, na esquina, reconheceu o garoto da noite passada.
"Não pode ser..."
Fixou o olhar, tentando ter certeza do que acabara de ver. O garoto estava meio de lado, ela não tinha certeza. Será que era ele? Mas o garoto se virou, e não, não era quem ela pensava.
"Seria mesmo muita coincidência, vê-lo justo hoje, Justo depois da noite de ontem..."
Mas lá no fundo, ela desejava que ele passasse na sua frente naquele momento, nem que fosse só para revê-lo.

E o livro ficou só na introdução.
O rosto de Eduardo não saia de seus pensamentos. O rosto, os olhos perdidos e a desilusão.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Conversar, e só!

Não olhou para trás, sentiu-se aliviado por deixar para trás a única testemunha de sua insanidade. Mas caminhando pela cidade, antes da mesma acordar, pensou que talvez a constrangedora compania dela era melhor que a solidão. "Eu preciso tomar uma decisão", pensava, "mas não quero." Qual seriam as conseqüências de sua demora, ele se perguntava com medo.

Quando chegou em casa, todos ainda dormiam. Foi até seu quarto, estava exausto, não banhou-se, apenas deitou-se na cama e apanhou seu celular. Uma chamada. Carlinhos. Um convite indecente, certamente. Uma mensagem. Jorge. Um convite ameno. "Uma ajudinha". Que desculpa teria encontrado?

Ignorou ambos e virou-se na cama. Queria dormir, mas ficou por muito tempo pensando. Achou que era melhor conversar com alguém. Não havia com quem. Talvez a menina que o acolhera. Talvez Carlinhos.

Um resmungo sonoolento atendeu.
"Parece que a noite foi boa ontem."
"Fiquei esperando você retornar. Umas amigas minhas vieram aqui em casa no final de noite, e bebemos vodka."
"Eu gostaria de conversar"
"Vem aqui para casa"
"Eu gostaria de realmente conversar, e só"
"..."
"..."
"Então vamos sair?"
"Era o que eu queria"
"Tem uma festa hoje, do pessoal da arquitetura"
"Passa aqui as 10, pode ser?"
"Tá combinado!"

E agora teria que decidir o que faria até as 10 da noite. Se tivesse sorte, conseguiria cair no sono. O final de semana apenas começara.