quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Sem sal ou limão

Vestiu-se com simplicidade, as roupas de sempre, não pretendia seduzir ou se exibir. Só queria conversar com alguém, e esperava que Carlinhos entendesse que era só isso que Eduardo queria.

Quando o interfone tocou, atrasado, sabia que era Carlinhos. Desceu e o encontrou diferente, vestia uma camisa, e não uma camiseta curtíssima, como era de costume. Se cumprimentaram e foram caminhando, já era tarde.

- Achei que nunca mais me ligaria.
- Eu também não sabia se voltaríamos a conversar.
- E agora, o que aconteceu?
- Eu conheci uma menina. A verdade é que já não sei se sou gay.

O entusiasmo que Carlinhos geralmente exalava junto com seu perfume de marca parecia ter sumido, e nenhum dos dois soube o que falar. Em alguns poucos minutos estavam próximos a festa. Os universitários bebiam em copos de plásticos, espalhados em pequenos grupos pelo campus.

Eduardo precisava destruir aquele silêncio, mas só conseguia se arrepender de como fora direto em seu comentário. Sempre considerara Carlinhos uma pessoa puramente hedonista, e sempre duvidara de seu próprio desempenho na cama. Não esperava que Carlinhos fosse se afetar.

- Vamos pro bar, antes? de repente é melhor sentarmos.
- Pode ser.

Foram para um bar das proximidades e sentaram em uma mesa ao ar livre.

- Desculpe, eu não sabia como falar isso.
- Tudo bem. Não há nada de errado nisso. Mas eu quero uma tequila.

Carlinhos sorriu com esforço e foi buscar uma tequila no balcão. Voltou com uma cerveja para Eduardo, era o que sempre bebia.

- Mas porque você quis falar justamente comigo sobre isso?

Eduardo teve um pouco de vergonha da resposta. Mas pareceu confortável que Carlinhos sentisse um pouco de pena dele. Talvez amenizasse outros sentimentos piores.

- Eu não tenho amigos. Só você.

O breve silêncio que se seguiu fez com que Eduardo sentisse tanto constrangimento que segurou o pequeno copo de vidro, cheio de tequila, e virasse o copo, engolindo tudo, sem sal ou limão.

domingo, 3 de agosto de 2008

Só mais um trago

"Festa estranha, com gente esquisita".
Renato Russo deve ter se inspirado nas festas universitárias na hora de colocar essa frase na música "Eduardo e Mônica".
Ela não estava à vontade. Queria ir embora. Queria recuperar o telefone de Carlos e lhe ligar. Queria perguntar como ele estava. Queria lhe dar um beijo.
Mas ali estava ela. Ao lado de Ana Paula, que da menina tímida das aulas primárias, se tornara, o que parecia ser, a pessoa mais popular do campus.
"Vamos lá Flávia, aproveite a festa... depois você pensa em Carlos".
E foi com esse pensamento que ela deu mais um gole em sua cerveja.
A angústia foi lhe tomando conta do corpo. E a cerveja foi lhe tomando conta da sua mente.
Procurou na sua bolsa por um cigarro... nada... Ela tinha prometido parar. Mas pararia amanhã. Naquele momento ela precisava de um cigarro.
"Uhm... vou pedir pra aquele carinha"
- Ei! Tudo bem? pode me arrumar um cigarro?
- Claro, pega aí!
- Obrigada! Tem fogo?
Ele acende o cigarro dela.
- Valeu mesmo!
- Sem problemas... se precisar...
- Ok. - e sorriu para ele.
"Onde será que a Ana está?" - pensou enquanto dava mais uma tragada. Procurou sua amiga na multidão. "Ah, lá está ela!".
Já era 1 da manhã, e aquela festa parecia que não ia mais acabar.
De repente, Ana lhe beijou. Ela não estava esperando por aquilo, mas ela estava muito bêbada pra negar aquele beijo. "Que seja" - foi a última coisa que ela lembrou no dia seguinte, daquela noite estranha.