sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Vítimas

O desgosto do problema, quando ele surge imenso e imponente, é bem pior quando ele é conseqüência de uma atitude intencional e errada. Sabia que era errada, desde o início, e insistiu em fazer.

- O que eu faço?!

Perguntava seu colega. Era sempre assim: Jonas não conseguia tomar decisões sozinhos. Iria repetir a pergunta besta até que alguma resposta aparecesse.

- E se ele estiver morto?
- Vai conferir. Rápido.

Jonas saiu do carro e Vinicius pegou a arma de fogo em sua mão. O susto no rapaz acontecera tão bem: porque tinham que atropelar um motociclista aqui, duas quadras da casa abandonada? Como um castigo pelo que fizeram, o destino parecia querer transformá-los em assassinos mesmo quando se lembraram de trazer uma arma sem balas.

Mesmo que o motociclista não morresse. Daqui a pouco o homem sairia da casa abandonada, e os encontraria ali, esperando e esclarecendo a situação com a polícia. Poderiam simplesmente fugir, deixando para trás no meio da noite um corpo, sem saber se vivo ou morto?

- Acho que está vivo. Está respirando, e me respondeu, só que não consegui entender nada do que ele fala.
- Vamos colocá-lo no carro.

Vinicius se aproximou do corpo do músico, Jonas ao seu lado. Se o tirassem dali logo, o homem da casa abandonada não os veria.

- Podemos quebrar alguma coisa sem querer.
- O que vale é a intenção.

Não sabia de onde tirara tanto sangue frio. Jonas quase tremia de trão nervoso. Juntos, levaram o músico até o carro. Foi quando ouviram as sirenes.

- Droga. Jonas, leve o corpo embora, que eu vou sair andando com as armas. Se te encontrarem, diga que estava levando o cara pro hospital.

Falando isso, Vinicius arrumou seu casaco e deu alguns passos, era apenas um civil voltando para casa numa sexta a noite. A polícia chegava ao local do acidente. E ali estava Jonas, sem arma, apenas uma vítima da própria desatenção no trânsito.